segunda-feira, 6 de junho de 2016

Resenha Artlectos e Pós- Humanos 9 - Por IV Sacerdotisa Danielle Barros

Capa Artlectos e Pós-Humanos #9
A Artlectos e Pós-Humanos é uma série de quadrinhos completamente distinta de tudo que já li. Tem histórias que me incomodam, que leio várias vezes, que me deixam pensativa. Histórias que me inspiram escrever as minhas e a pensar sobre a vida.


Esta nona edição é daquelas leituras que nos deixam devastados por dentro. Talvez seja por isso que demorei tanto a escrever sobre ela. A capa traz uma árvore. Uma fabulosa árvore mixada aos traços da silhueta humana.
Mas...Uma árvore em uma capa de quadrinhos? Sim, Edgar Franco é um artista que faz capas conceituais e não capas “padrão” clichês que tem sucesso garantido no julgamento do público (e não estamos falando das árvores nas capas de livros para colorir). Uma arvore na capa é perfeito para a essência desta edição que traz uma profunda reflexão sobre a extinção do bioma cerrado, uma infeliz realidade constatada. A edição traz diversas HQs, todas interconectadas com as experiências do Ciberpajé em sua incursão no mergulho em si mesmo, fruto de suas viagens com cogumelo cubensis, respiração holotrópica e de ritual mágico-telúrico em contato direto com árvores de uma mata.
As histórias trazem um vislumbre do que virá (já é), como em Ciberpatuá Quântico, mostrando o ourobouros do fetiche tecnológico e da submissão das criaturas à tecnologia. Em último Erro ficamos diante da face obscura feminina e o triunfo da desconfiança, fruto do mergulho no espelho e da recorrente atitude de julgar os outros a partir de nós mesmos.
Pág da HQ Gene Egoísta? Artlectos e Pós-Humanos #9

Em Gene egoísta? O Ciberpajé traz uma narrativa sobre o colapso humano erigido em torno da cultura humana forjada na crença da competição e não cooperação entre as espécies, em que a espécie humana subjuga os outros seres e o meio ambiente.
Em HIERARQUIADN o autor trata da desconexão cósmica entre os seres e Gaia, onde a humanidade se coloca geneticamente superior em hierarquia a outros seres e coisas (ADN traz a referência à informação genética, o DNA). Seria uma suposta superioridade eugênica conduzida pelos magos negros da ciência e tecnologia visando o sonho ilusório do lucro e poder, mas que de nada valem em essência, uma vez que não há real sabedoria do mundo se não houver a busca do conhecimento de si e do outro, algo que seres rasos não tem coragem de se aventurar.
Cerrado Ser é uma narrativa belíssima com texto e ilustrações magníficos. A essência da história é o que deveria ser disseminado e ensinado a todas as pessoas: a importância de saber receber, intuir, sentir a sabedoria emanada da natureza em sua saga ancestral e cósmica. Receber com gratidão a sabedoria de Gaia, a quem a humanidade destrói quando deveríamos venerar. 

Pág da HQ Cerrado Ser. Artlectos e Pós-Humanos #9
Creio que a chave da vida consiste em compreendermos que cuidar do outro é cuidar de nós, uma vez que somos todos um. Mas ao invés disso, seguimos destruindo-nos, com a equivocada ideia de que a natureza não é parte de nós. Além disso, é importante ter em mente que “preservar a natureza” portanto, não é um “favor altruísta” que “prestamos a Gaia” e sim um ato de autoamor, responsabilidade e inteligência, entendendo que cuidar do ambiente é garantir nossa vida. Contudo, seguimos o rito fúnebre da autoextinção, como o autor trata em uma outra obra situada na Aurora Pós-Humana, no projeto musical Posthuman Tantra com o álbum “Lúcifer Transgênico”.
A edição traz HQforismos (subgênero de quadrinhos poéticos filosóficos) todos com a verve poética, reflexões sagazes e profundas sobre a vida, natureza humana e o ego, o Cosmos, a mixagem entre animais, vegetais e tecnologia, a animalidade sagrada entre opostos (macho e fêmea, vida e morte, sombra e luz) que geram vida e crescimento.




HQforismo p.24 Artlectos e Pós-Humanos #9


A edição 9 da Artlectos e Pós-Humanos é um presente aos leitores e apreciadores dos quadrinhos verdadeiramente autorais, toda edição é repleta da arte ocultista simbólica do mestre Edgar Franco, que intriga, incomoda, encanta e nos faz pensar sobre o que somos e para onde estamos caminhando. Para aqueles que ainda acreditam no mito de que quadrinhos é apenas uma leitura “banal de entretenimento” (também o é), quem lê uma HQ de Franco e compreende sua força sai da leitura com uma marca invisível, mas indelével na alma.
Recomendo!









Serviço:
Artlectos e Pós-humanos 9 Edgar Franco
João Pessoa: Marca de Fantasia. 
Março de 2015. 32p. 14x20cm, R$8,00.
ISSN 1984-6665
Pedidos - Contato 
marcadefantasia@gmail.com 


*Danielle Barros é IV Sacerdotisa da Aurora Pós-Humana, poetisa, desenhista e zineira. Bióloga, mestre em Ciências e Doutoranda em Ensino de Biociências e Saúde pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz/RJ). danbiologa@gmail.com

Esta resenha foi publicada originalmente AQUI.