segunda-feira, 6 de junho de 2016

Resenha de HQs da Artlectos e Pós-Humanos 8 por IV Sacerdotisa

Capa de Artlectos e Pós-Humanos 8

É sempre desafiador mergulhar na arte de Edgar Franco e é impossível fazê-lo sem me perder (embora não faça nenhum esforço de fincar meus pés no chão). A Artlectos e Pós-Humanos 8 é um número especial. O 8 é associado ao símbolo do infinito, representa movimento, renovação, energia cíclica, simbiose. E é bem isso que vemos em toda edição que traz a proposta de parcerias e métodos inusitados, com pessoas queridas, e com criaturas e seres não-humanos!

Essa capacidade incomum de se reinventar em suas expressões artísticas é que faz com que a revista continue viva por todos esses anos, e seu criador sempre nos surpreende. 
Fui uma das convidadas a participar deste número, e em breve publicarei um texto com minhas impressões sobre como foi participar desta edição tão especial!

SEIVA (Edgar Franco, Jorge Del Bianco e Gazy Andraus)

Uma HQ que exala amizade fraterna. Criação entre grandes amigos e artistas: Ciberpajé, Gazy Andraus e Jorge Del Bianco! O processo criativo foi muito interessante, uma espécie de transe criativo em que, em apenas 2 horas, os amigos geraram uma história em conjunto: Franco desenhou e escreveu a primeira página; na sequência, a segunda página foi feita por Del Bianco; Gazy Andraus fez a terceira e Franco fechou a HQ com arte e texto da página final. Embora cada um dos artistas tenha um traço e estilo próprio de escrita, a HQ teve um fio condutor coeso e fluido. O argumento traz o dilema existencial do vazio, da culpa, e da busca de si. O nada como o fim e o começo. A  esintegração para o renascimento do verdadeiro eu, o desejo seminal de tornar-se quem se é a despeito de toda formatação cultural, expectativas sociais, determinismos e amarras. Ser Flor de dentro para fora, vivenciar o desejo primal.

HQ (E) ternura (de Edgar Franco e Moravecchio)

Uma HQ com o processo incrível de criação, ela foi desenhada de forma conjunta COM UM ROBÔ (da série Draw Droids 2.0 desenvolvido por Flávio Oliveira). 

Foto da apresentação do Ciberpajé sobre o processo criativo de (E) ternura durante Seminário acadêmico na UFG, Goiânia (junho/2012) 
Foto Danielle Barros
O robô de nome "Moravecchio" desenhou (através de sensores de luz) os primeiros traços dos desenhos e Edgar Franco finalizou a arte! Franco apresentou trabalho sobre o processo criativo desta HQ no VII Seminário Nacional de Pesquisa em Arte e Cultura Visual da Faculdade de Artes Visuais (FAV/UFG) em Goiânia, no GT de Narrativas Visuais e pode ser conferida neste LINK
A HQ traz a mensagem simples e complexa de que um gesto de ternura pode ressoar eternamente.
Um conhecimento ancestral que tem em seu bojo a mensagem de que, mesmo nas incertezas que a vida traz em sua imanência, quem cultiva sementes do bem colhe flores e ternura, que floresce no tempo devido nas raízes da alma.
Vale a pena conferir!

Gnosce Te Ipsum” (Edgar Franco e Elydio Santos Neto)

A edição 8 é dedicada ao irmão Elydio dos Santos Neto, um grande amigo que transmigrou recentemente e com quem Franco fez parceria de criação espontânea de uma HQ. Prof.Elydio selecionou os desenhos/arte de Edgar Franco e escreveu um roteiro poético.
Com o título “Gnosce Te Ipsum” a história já começa trazendo à tona o dilema existencial vivenciado por um ser (num “agora futuro”) que paradoxalmente acredita que cada nova tecnologia implantada estaria “libertando-o” do “mundo natural” – um mundo colocado em xeque quando se questiona “o que é um mundo natural?”.
Porém, o que se apreende é que mesmo em um universo biotecnológico tão distinto do que vivemos agora, (2014, planeta Terra), o drama vivenciado é bastante atual, pois reflete a busca pelo “Eu Sou/ Quem Sou?” que, na perspectiva da Aurora Pós-humana traz implicações.
Ao não saber-se quem é, e, portanto, não ser protagonista de si, o Ser torna-se alienável e manipulável pelas culturas antagônicas desse universo, mas se pensarmos em nossos dias atuais, poderíamos traçar paralelo com os indivíduos que fogem de sua busca essencial e de enfrentar a si mesmo, se tornando alvos fáceis e massa de manobra de cultos religiosos, partidos políticos, indústria, publicidade, mídias hegemônicas, entre outros.
Ao dar conta e questionar-se “Todos me querem! O que eu quero? Quem eu sou?” soa como um despertar retumbante, doloroso, mas essencial, irretornável. 
A HQ demonstra que o Ser pode ser capaz de lidar com inúmeras situações, pessoas, tecnologias, mas quando diante de si, da batalha de ser, na luta entre o coração e o ego – se vê na contradição de seus paradoxos, e muitas vezes na falta de fé em si mesmo.
A fêmea aparece como memórias, histórias e musas que forjaram a persona que somos hoje. A fêmea criadora, mas também pandórica, uterinizante, maternal, venenosa, visceral. A porta da transcendência. A luz e o nigredo. A meretriz, dona da sabedoria humana, Pós-Humana, sagrada e sexual.
E a partir dela, seu oposto complementar, ele consegue descobrir o caminho do autoconhecimento e permite emergir em si seu verdadeiro eu. Ancestral. Serenidade, equilíbrio, o xamã pós-Humano. Salve Elydio!!!
Emocionante! Ainda mais quando vejo essas fotos de momentos tão ímpares, de pura “criação e vida”!
Ciberpajé e Elydio Santos Neto na oca do Ciberpajé em Goiânia, durante processo criativo da HQ "Gnosce Te Ipsum" 

Sim, a arte nos torna eternos, mas não a crença ingênua de acreditarmos que nossos bits e papéis ficarão eternos, ou que nossos desenhos e poesias serão lidos daqui a algumas décadas, não é isso.
A obra de arte eterniza seu criador dentro daqueles que são tocados por ela, pois é através da arte que conhecemos o criador desnudado. E é por isso que prof. Elydio e Edgar Franco estarão eternos e vivos dentro de mim, pois através da arte deles pude conhecer uma fração da essência de cada um, e conhecer a mim mesma. Essa arte me emocionou, me fez e faz viva, essa arte e seres eternos que habitam em mim. 



Esta resenha foi postada originalmente AQUI.


Danielle Barros é poetisa, desenhista e fanzineira, Doutoranda em Ensino de Biociências e Saúde (IOC-FIOCRUZ) (bolsista CAPES/Plano Brasil sem Miséria) e Mestre em Ciências (ICICT/FIOCRUZ). Bióloga formada em Licenciatura Plena na Universidade do Estado da Bahia (UNEB).